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Um Brasil de carnaval e o fim da quarentena

Adiamentos dos maiores eventos do mundo, Enem e esperanças: a Covid-19 está realmente colocando um basta em toda a normalidade que conhecíamos?


Por Paula Moran

"Carnaval Vírus" em Duesseldor, na Alemanha | Foto: Thilo Schmuelgen/Reuters

“Adia Enem, mas não adia carnaval”, é a fala de um conhecido que vi reclamando nos stories do Instagram dia desses.

Se o vírus do pânico nada mais é do que uma histeria, segundo nosso presidente o senhor Jair Bolsonaro, nada temos que temer pelo fim do isolamento ou quando tudo isso passará. Mas as manchetes e relatórios de saúde que chegam a não caber mais nas abas de tantos jornais e portais abertos no navegador afirmam o contrário. O medo continua se alastrando por todo o país. São mais de 24.512 mortos, contabilizando mais de 391.222 casos confirmados – estes, apenas os que temos dados – e, junto com o medo, o Brasil se torna o terceiro país com o maior número de casos no mundo, segundo dados do Ministério da Saúde de hoje, 26 de maio.


De acordo com dados do Google Trends enviados ao o site Tilt, da Uol, no fim de abril, o que os brasileiros mais querem saber é quando a quarentena vai acabar. A pergunta "quando vai acabar a quarentena 2020?" foi a que mais cresceu entre as dúvidas relacionadas ao isolamento social, medida de combate ao novo coronavírus adotada no Brasil e em vários outros países. Na sequência, a dúvida sobre a quarentena mais procurada no Google foi "quando voltam as aulas depois da quarentena?", com um crescimento de 1195.87% no Brasil. Apesar desse aumento, as projeções dos especialistas para quando o fim do isolamento irá realmente acontecer só diminuem e estão cada vez mais incertas.


Fora todas as complexidades que envolvem uma pandemia por si só, vivemos uma em um século em que tudo viraliza – menos o bom senso e a preocupação com os demais. Dias e dias passam e nada de uma vacina ser aprovada. Dias e dias passam e nada de o comandante de nosso país entender que o vírus precisa ser detido imediatamente com tudo o que temos. Ainda que sem vacina, o controle cabe as autoridades. O discurso do presidente não somente inviabiliza a palavra de nós, informantes de toda uma sociedade, como desmente as próprias informações que ele, com um ar de deboche, passa. Assim, mais uma vez, o povo brasileiro se vê em um impasse sem fim: aonde estamos no processo dessa quarentena? Estamos caminhando para o fim ou apenas começando? O que acontece depois?


O país do carnaval, conhecido pelas suas mais belas paisagens, ancestralidades e raízes, bem como seu afeto caloroso, está dividido entre pessoas que se orgulham por não ter votado em nossa maior autoridade e pessoas que se arrependem, mas tem até medo de mostrá-lo. Se já éramos um povo desunido em milhares de outras questões, desde os campeonatos de futebol à política das metrópoles, hoje, nos vemos em um cenário completamente disfórico – isto é, tomado pela ansiedade, depressão e inquietude.

Esse país que berra “eu sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor”, parece não existir mais. Se tornou um país triste, calado e sem esperança. A esperança de que um dia essa quarentena acabe para que possamos nos abraçar de novo ou voltemos a uma vida normal é quase nula, nunca foi palpável e deixou de ser visível há muito tempo. O Enem, maior exame do país e cuja propaganda estampa jovens estudando a distância via computadores, tablets e celulares, está prestes a ser adiado – talvez mais pela pressão social do que a mando de quem deveria cuidar dos seus. Mais da metade da população dos estudantes que precisam fazer a prova não tem acesso a internet e, se o tem, como compará-lo a um acesso de quem pode assistir as aulas online do cursinho e continuar estudando?


As perguntas são cada vez mais infindas. Há os que respeitam o isolamento, há os que não o fazem e há os que não podem fazê-lo. Nem os milhares de profissionais da saúde se colocando em risco todos os dias para combater o vírus de perto preocupam tanto os brasileiros quanto o carnaval que pode não acontecer. Nem as milhares de vidas perdidas pelo simples fato de ainda não entendermos o quanto essa pandemia – de vírus e “histeria” – é perigosa. Nada parece ter a capacidade de mudar um cenário ainda repleto de incertezas e desesperanças. Tentamos prezar por nossa sanidade, até que um dia nem nisso poderemos nos escorar e, apesar das tentativas, jamais conseguiremos mudar a cabeça de um homem teimoso que decidiu governar como presidente.


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