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Tava na agenda, e agora?

Atualizado: 16 de Jun de 2020

Festas, shows, casamentos e até as Olimpíadas foram adiadas. Entenda como os protagonistas desses segmentos estão criando soluções para manterem vivos seus sonhos.


Escrito por Talita Laurino

Apuração de Talita Laurino, Lila Dariva, Paula Moran e Raphaella Piovezan



Aglomeração era a palavra de 2020.

O ano prometia em eventos, festivais, cerimônias e comemorações. À começar pela estreia do carnaval de São Paulo como destino mais procurado por turistas nesta época do ano, passando até mesmo na frente do Rio de Janeiro. Ainda acreditava-se que temas como a intolerância e o empoderamento feminino seriam os principais assuntos discutidos no ano. Viradouro levou o primeiro lugar entre as escolas de samba do Rio de Janeiro trazendo à tona essas temáticas da militância. Poucos ainda previam que o assunto seria outro.


Decretada pandemia em março, o Brasil tornou-se um dos países mais afetados pela COVID-19, com o epicentro da doença em São Paulo. Desde então, não se fala sobre outra coisa por aqui. Para evitar a contaminação, ainda sem vacina, dois únicos remédios foram recomendados: o distanciamento social e ficar em casa. O mercado mais prejudicado com isso foi o do entretenimento, da cultura e dos esportes, levando profissionais da arte e atletas ao desemprego e ócio.


Ao todo, ainda estima-se que no Brasil, até o final do ano, teremos 78 milhões de pessoas desempregadas, de acordo com um estudo feito pela Rede de Pesquisa Solidária sobre vulnerabilidade no trabalho. É visando fugir dessa estatística que muitos mercados estão se reinventando.


A empresa de entretenimento de Curitiba, Planeta Brasil, responsável pela concessão da Pedreira, Usina 5 e Ópera de Arame conta que sofreu com a perda ou adaptação de mais de 30 projetos de eventos que estavam programados para este ano. “O ano de 2020 estava todo planejado e incrível. Com a pandemia, levamos um choque, mas não ficamos estáticos em nenhum momento, já criamos alternativas”, explica a sócia proprietária da empresa, Malu Cornelsen. Uma das soluções encontradas é a plataforma drive-in. A Pedreira Paulo Leminski, que já recebeu artistas como Katy Perry e Paul McCartney, conceberá o maior drive-in do Sul do Brasil.


“A ideia não é novidade, os cinemas já existem nessa plataforma desde 1930, mas aplicá-la para diferentes formas de entretenimento é uma revolução. Por que não palestras, cultos, lives e até festivais drive-in?”, questiona Malu. A diversão segura contará com uma tela de cinema com resolução 4K, de 162m². Os espectadores sintonizarão nos rádios dos carros uma frequência FM para ouvir o áudio.


Enquanto as festas e o entretenimento se adaptam, algumas cerimônias não tem alternativa, a não ser esperar. Carlos Eduardo Arnhold e Aline Nicolodi Fracaro estão com o casamento marcado para dia 22 de agosto. A insegurança de ter que mudar a data deixa as emoções imprevisíveis. “Ainda nos mantemos otimistas que dará tudo certo até lá, embora existam momentos de pânico e falta de sono”, conta Aline.


Aline e Carlos | Arquivo pessoal

Quando questionada se a liberação condicionada a cortes de convidados ou uso de máscaras, por exemplo, seria uma opção, ela se posiciona pela mudança de data e prefere que ocorra no próximo ano, para ter maior garantia."Tudo bem se precisarmos casar no ano que vem, casamos apenas no civil neste ano, com o mínimo de pessoas presente. O que me deixa mais triste é adiar, também, a lua de mel, porque aí é reagendar e reagendar”, complementa Arnhold.

Jaqueline e Leonardo | Arquivo pessoal



O casal Jaqueline Flores Zamban e Leonardo Ferronatto de Souza não tiveram a mesma sorte com as datas. Com o casamento para o dia 28 de março, a cerimônia foi remarcada. "Os convidados, por si só, estavam com medo também. Já no começo de março mandavam mensagens e perguntavam se ia ter o casamento, devido a situação que já estava em São Paulo. Então, a gente já vinha amadurecendo essa ideia de cancelar e, com o decreto, foi definitivo", comenta o noivo. Os dois ressaltam que a cerimonial foi essencial nesse momento. “Ela quem organizou tudo e renegociou, montando um grupo no WhatsApp com todos os fornecedores".



Elaine Silveira é uma das profissionais que atuam nessa área. Responsável por levar toda estrutura de bar, equipe de bartender, insumos e tudo o que é necessário para servir os convidados num evento open bar, ela conta que seu público são noivas, debutantes e formandos. Com esse trabalho, ela sustenta seus filhos há 15 anos. Hoje em dia, entretanto, os negócios não vão nada bem.


“Nove contratos foram reagendados e um foi cancelado. O evento aconteceria na sexta-feira, bem o dia que foi decretada a quarentena. Na quinta-feira, durante o dia, saí de casa e comprei frutas, gelo, bebidas descartáveis e outras coisas pelo valor de R$953,76. Por volta das 18h horas, a cliente me ligou e cancelou o evento, exigindo o dinheiro de volta. Resumo da história: eu não tinha mais o valor todo pago pela cliente e ela entrou com processo contra mim”, conta Elaine.


Elaine | Arquivo pessoal

A produtora de eventos também ainda não conseguiu acesso ao auxílio emergencial, afirma que encontra-se até hoje em análise. “Mãe solteira, três filhos menores, sem poder trabalhar e não consegui um retorno sobre o tal auxílio. Ao meu ver isso é mais um golpe sujo do governo. Conheço vários jovens entre 18 a 24 anos que nunca trabalharam na vida, receberam o auxílio e compraram narguilé, fizeram churrasco e estão até indo para praia aos finais de semana! Exemplos de pessoas próximas a mim”, revela.


"Não sei se é o espírito de empreendedora ou espírito de mãe "

Ela conta que chegou ao ponto de não ter dinheiro para comprar pão aos filhos e que precisa pedir renda extra aos amigos e familiares. “À base de remédio para dormir, eu sonhei com a rifa, pela manhã acordei e divulguei em todos os grupos. Consegui arrecadar um dinheiro para comprar alimento pra casa, mas minhas contas permanecem atrasadas”, complementa. Elaine divulgou seu trabalho e sobre a rifa no Clube da Alice, e acabou fechando contrato com uma noiva para 2022. A negociação veio em boa hora, já que conseguiu 30% do valor negociado para receber agora. “Meus filhos de 15 e 14 anos também estão fazendo lanche para vender e me ajudar em casa”, conta.


SONHO OLÍMPICO ADIADO


Casamentos, festas e sonhos ficaram para mais tarde. Nos esportes, principalmente, com a Olimpíadas de Tóquio marcada agora para julho de 2021. A nadadora Fernanda de Goeij era uma das atletas-promessa para este ano. Ela conta que suas expectativas para a seletiva das Olimpíadas estavam bem altas e que fazia até mesmo um ciclo de treinamento focado para isso.


Fernanda no Troféu José Finkel em 2019 | Foto Raphaella Piovezan

O técnico e educador físico, Rodrigo do Herval Felipe, conta que Fernanda estava em seu melhor momento. “Havíamos chegado da 4ª temporada de treinamento em altitude, onde já haviam respostas positivas em vários parâmetros de indicadores de performance. Tempos e velocidades melhores que nas últimas três temporadas, e até superiores aos tempos e ritmos feitos em Curitiba, com resposta de lactato e recuperação surpreendentes”, lamenta o preparador físico.


“Na primeira semana de pandemia, me senti muito preocupado, porém, analisando o mapa mundial, vi que afetaria o mundo todo e que não seríamos os únicos prejudicados. Hoje, enxergo que isso veio como um divisor de águas: vai mostrar quem tem resiliência, paciência, conhecimento, disciplina, perseverança e foco, ou seja, vai tirar o melhor de nós”, confia.


Para atletas como a Fernanda, que tem o sonho de disputar as Olimpíadas, o Governo do Paraná mantém dois projetos de incentivo: o Geração Olímpica e o Proesporte. Ambos são relacionados a preparação de atletas e bolsas para os que estariam nos Jogos Olímpicos. “Esses projetos continuaram, não pararam, porque o estado vê a importância de continuar investindo independente da realização ou não dos jogos olímpicos em 2020. Essas são políticas públicas no incentivo a continuidade da atividade física e do treinamento esportivo”, explica o Diretor de Esportes do Instituto Paranaense de Ciências do Esporte/Paraná, Cristiano D’El Rei.


Mas como lidar com a ansiedade de um sonho adiado? Afinal, tava na agenda e agora? Psicólogos no mundo todo estudam como reduzir os danos emocionais da pandemia. Inúmeros são os estudos e métodos para trazer conforto na quarentena, mas um denominador comum destaca-se em todos: a empatia.


“Precisamos aprender a olhar o todo, entender que não é só com a gente, que não é o mundo que está se voltando contra nós. A gente consegue olhar com um pouquinho mais de empatia, aceitando com mais receptividade essa situação, e assim lidando e tem uma visão do que vem por diante, analisando o que pode ser feito a respeito disso, mesmo que isso tenha que flexibilizar nossos desejos primitivos”, aconselha a terapeuta Priscila Conte Vieira. Outras recomendações importantes ressaltadas por ela, são manter atividades físicas seguras e acreditar em um crescimento pós-traumático, com um mundo mais humanizado e fortalecido socialmente.


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