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Nas marcas do rosto, a linha de frente

Atualizado: 11 de Jun de 2020


Valéria com marcas no rosto após tirar o equipamento de proteção | Arquivo pessoal

Por Lila Dariva


Há alguns dias, ao apurar algumas informações sobre fontes, recebi um relato que me deixou emotiva. Mais tarde, ao conversar com a dona dele, eu descobriria que entre a medicina e o jornalismo dividimos um mesmo hábito e uma mesma paixão: a escrita…


Por trás dos equipamentos de proteção individual, olhos cansados de quem já trabalhou – em alguns momentos – por mais de 14 horas seguidas. O medo, a insegurança e as incertezas existem, mas não podem transparecer. Tudo é guardado quando o paciente chega, ou extravasado em 5 minutos de surtos programados para manter a sanidade. A médica Valéria Scavasine trocou a neurologia pelo atendimento de pacientes com insuficiência respiratória, positivados – ou não – pelo Covid-19, quando o Centro Hospitalar de Reabilitação Ana Carolina Moura Xavier virou retaguarda para Coronavírus.


Formada pela Universidade Federal do Paraná, em 2013, Valéria se dedicou a neurologia desde então, terminando a residência pelo Hospital de Clínicas do Paraná, em 2017. Essa área é a sua paixão, mas ela precisou colocá-la em pausa nesse momento. Assim como a maioria das pessoas, a reinvenção vem acontecendo, também, para os profissionais da saúde, que saem de suas especialidades em prol do combate ao novo vírus.


"De repente, eu passei a ver mais tomografia de tórax, do que tomografia de crânio. De repente, eu tenho mais medo do vidro fosco, do que da transformação hemorrágica. De repente, eu passei a andar por aí com umas marcas estranhas no rosto", escreveu Valéria em uma publicação no Facebook, por meio da qual fiquei sabendo de sua história. Sair da zona de conforto foi uma opção dela, uma vez que o centro de reabilitação deixou em aberto aos que não se sentissem confortáveis, ou que fossem grupo de risco, a ficarem afastados dos plantões.


"Esse momento está sendo muito desafiador. Estou trabalhando em casos que não via há muito tempo. Os pacientes chegam com insuficiência respiratória grave. Sabe a quanto tempo eu não trabalhava com isso? Desde o início da residência. Eu tenho que reciclar meus conhecimentos todos os dias", confessa ela. Outro desafio diário, que ela descreve, é a saudade de seus pacientes neurológicos e a preocupação com a saúde deles, uma vez que a procura por atendimento médico em casos de AVC caiu muito e isso pode trazer graves sequelas a eles.


O hospital Ana Carolina Moura Xavier, que é administrado pelo Estado, aumentou o número de atendimento por causa da mudança e chega a ter 40 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) – dependendo do número de isolados. Os pacientes recebidos ali vêm encaminhados de UPAs ou do SAMU e chegam com insuficiência respiratória aguda. A divisão ocorre, então, por andares do hospital, separando os casos menos prováveis dos mais prováveis de serem positivados, para que uma possível contaminação não ocorra com os menos prováveis. Mas não foi apenas o número de leitos que aumentou, segundo a médica. "A equipe é imensa. Veio muita gente do Hospital do Trabalhador para completar nossa equipe. Muitos profissionais bons, intensivistas muito experientes e com conhecimento extremo no que fazem. Eles são sensacionais e estou aprendendo muito."


Ainda que eles existam, nem todos os dias são bons dias. O número de pacientes que dão entrada no hospital varia e isso pode ocorrer pela demanda alta de infectados ou por outros hospitais estarem fechados para receber novos pacientes. "A última quarta-feira foi um dia pesado. Internaram cinco pessoas durante o dia e sete durante a noite, sendo que, ao menos três deles, já tínhamos certeza ser Covid", conta.





Em dias assim, o emocional tende a ficar abalado, mesmo para quem já está acostumado com uma rotina intensa. "É muito difícil, porque o perfil desses pacientes positivados, que estão na UTI, são muito parecidos. Eles tendem a ser muito graves. São pacientes que fazem arritmia, que tem intercorrência no plantão e o tratamento, que é padronizado, é muito agressivo, muito invasivo... Enquanto as outras doenças, como asma, tendem a provocar internamentos de dois dias, o Covid tem deixado pacientes 30, 40 dias na UTI, recebendo medicações fortíssimas para se manterem entubados", relata Scavasine. Mas, segundo ela, é dentro da própria equipe do hospital, com quem está passando pelos mesmos desafios diários, que o apoio para aguentar os momentos mais difíceis têm surgido. "A equipe nunca foi tão unida", conta.


Estar em contato diário com a doença deixa marcas… No rosto, que carrega vestígios do uso constante de máscaras e óculos de proteção – muitas vezes presos um plantão inteiro com fitas –, nos calçados e nas roupas, que precisam ficar antes da porta de entrada ao chegar em casa, na consciência de quem divide o lar com pessoas do grupo de risco, nos abraços que não podem mais ser dados. Mais do que nunca, a terapia tem sido fundamental para a médica, mas outra saída foi desabafar sobre o cotidiano na escrita. "Desde a adolescência eu uso a escrita como um mecanismo de defesa e uma parte minha nunca deixou de usar a poesia e a escrita para amenizar momentos difíceis. Desde março eu tenho escrevido quase diariamente e isso, além de me ajudar com o emocional e com a ansiedade, tem me ajudado na organização de casos de pacientes, uma vez que acabo tendo anotações de tudo, e posso compará-los para encontrar características semelhantes entre eles. Tenho tirado muito dessa experiência e vejo que escrever sobre, vai ser de fundamental importância, também, como registro do que vivi."


Em cada internamento, uma história, uma luta, um medo. Quando a epidemiologia constata que a internação de um paciente jovem deriva dele ser casado com uma pessoa que trabalha no hospital, o coração aperta. Mas eles não param. Todos os dias. Eles não param. Segundo os últimos dados divulgados pelo Ministério da Saúde, em 14 de maio de 2020, já eram 31.790 profissionais da saúde contaminados pelo coronavírus e 114.301 casos suspeitos estavam em investigação.



Foto da última viagem feita por Valéria | Arquivo Pessoal
"Essa foto é do dia 12 de Março, minha última viagem antes da pandemia... Representa um momento muito especial. De quando a vida ainda era normal..." - Valéria

Nota da autora: Essa foi uma conversa tão leve, com alguém que conta com tamanha paixão sobre sua profissão, que nosso papo poderia continuar por horas. A Dra. Valéria é uma dessas pessoas que ri com os olhos e, mesmo que essa conversa tenha sido pela câmera do celular, parecia que estávamos em um café, desabafando sobre os pesos da pandemia. Quando me despedi, pensei em seus pacientes. Lamentei por eles terem que vê-la tão equipada, escondendo a luz que irradia ao falar com tamanha delicadeza sobre a vida do outro.



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