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Existe amor em tempos de pandemia? E se ele existe, permanecerá quando tudo isso acabar?

Por Paula Moran


“Eu não sabia que as coisas aconteceriam da forma como elas aconteceram. Do mesmo jeito que tudo se iniciou online, hoje, só online mesmo para fazer as coisas funcionarem”, frase que Claire, intercambista em Gold Coast, na Austrália, reitera ao falar de suas percepções sobre o amor – em tempos de pandemia e quarentena. Ela e o namorado, italiano, passaram por algumas turbulências, pois, se ter que lidar com a distância já era difícil, com uma pandemia parece que tudo ficou ainda mais incerto. Ao se abrir sobre as crises que cercam os relacionamentos nesse momento, uma conversa sincera que vai além do amor e suas belezas traz esperança para aqueles que sofrem com a saudade e a incerteza de poderem rever seus amados.


Ver alguém através de telas nunca foi problema para a geração de millenials que, sempre acostumada as tecnologias e as facilidades que elas trazem, tiravam de letra a inconstância das redes sociais, as mensagens nos aplicativos e as ligações via Face Time. Millennials, como nos chamam, são os nascidos em berços tecnológicos, o digital sempre facilitou a comunicação – mas quem disse que com um vírus tudo isso viraria sinônimo de ansiedade, estresse e estar sozinho?


Para os que tem alguém e leem, sugiro acessar sua melhor playlist romântica para mentalizar em sentimentos o que o coração não consegue falar. Minha dica vai para a seguinte: https://open.spotify.com/playlist/3bMaXJtAf6yEHF1eGc0HTb?si=WtEZ7DDaTNyoybDWm0XUAw


Mas voltando ao assunto, não consigo sentir na pele o que significa estar longe de alguém que se ama em tempos tão loucos como os que estamos vivendo, mas Claire (23) já quer casar - mesmo não sabendo quando poderá ver Matteo (29) de novo. O italiano, que mora em uma das cidades mais afetadas pelo coronavírus, Novara, passou por momentos que os dois nunca imaginavam passar um dia. Dois, porque quando um passa por apertos, o outro também sente as dores. Quando a pandemia na Itália sugeriu ideias de rupturas, o Face Time era o único refúgio para um amor sobrevivendo, dia a dia, por algo muito problemático por natureza – ainda mais quando um vírus impede que os dois possam sequer se ver pessoalmente.


Claire e Matteo | Arquivo pessoal

Entender que a fragilidade de um relacionamento depende da frequência com que os dois podem estar juntos nunca foi um problema para eles. É claro, não é fácil estar longe de quem se ama, e este não é o único casal passando por esse problema agora. Mas é um, que com muito diálogo, se reestruturou para que a impossibilidade de estarem fisicamente juntos, fosse um motivo ainda maior para ansiarem pelo reencontro, que tampouco sabem quando poderá acontecer, mas já fazem planos.


Planos são estratégias que utilizamos para entendermos que estamos apenas passando por um momento ruim. Esse momento ruim pode nos servir de inspiração para colocarmos no papel ideias que jamais pensamos antes. Viajar, pensar em rotinas juntos, reencontros. Embora tudo isso pareça meio nebuloso nos dias de hoje. Ligações não bastam para um amor que transcende a distância e, agora, acho que todo mundo está tendo que se ajustar com essas distâncias, sejam elas físicas ou emocionais. Como planejar algo que depende de forças maiores e que não tem data para acabar? Como entender que tudo isso vai além do nosso poder – ou querer?


Claire conta que o namoro se tornou ainda mais especial pelo fato de estarem distantes. Mas e os casais que não conquistaram essa independência? E o que falar dos tantos matches e perfis em apps de namoro que não foram para frente? Felizmente, para Claire, o match com Matteo foi certeiro. Matteo morava no mesmo prédio que Claire e, na época, trocavam mensagens apenas pelo Tinder e Instagram, até que um dia decidiram pelo famoso “date” e depois que se viram e conversaram pessoalmente pela primeira vez, nunca mais se largaram. Até então, nem Claire nem Matteo sabiam que moravam no mesmo condomínio. Hoje, o assunto rende belas risadas e conversas com os amigos que conhecem a história.


Uma história que deu certo em meio a tantas outras que estão dando. Mas o medo persiste. As inseguranças são intensificadas. Os futuros são incertos e a saudade que fica machuca. Machuca porque além de não podermos ver quem a gente ama, não sabemos quando poderemos fazê-lo. Os millenials, apesar de acostumados com essa rotina de internet e relacionamentos que surgem a partir dela, não imaginavam que tudo que está acontecendo fosse afetar tanto algo que sempre lhes foi rotineiro. O celular e a webcam talvez sejam as únicas formas de contato que nos aproximaremos pelos próximos meses, ou até anos. Não sabemos quando a pandemia vai acabar, e o medo de que quando ela acabe mude tudo que construímos até agora é um fator que pode acelerar muitos futuros, muitas relações.


Enquanto isso, continuamos nos apegando e, muitas vezes, mostrando nossas vulnerabilidades. Aprender a lidar com a distância é difícil, e entender que não saber quando ela deixará de existir é mais difícil ainda. Para muitos, a pandemia trouxe questões que não entraram à tona antes dela. Para outros, ela só intensificou o que já existia ou, como ouvi em um podcast outro dia, trouxe o potencial de algo que poderia acontecer, mas talvez não acontecesse se tudo isso que estamos vivendo não fosse realidade.


São muitas realidades paralelas que nos deparamos diariamente nessa rotina maluca de quarentena e estar longe de nossos relacionamentos mais íntimos e importantes. São muitos porquês sem respostas que as vezes nos deixam mais malucos que a própria quarentena. Mas algo ainda persiste, e esse algo está dentro de cada um. O que chamamos de amor. O amor não morre com a quarentena e muito menos com uma pandemia. O amor é algo que transcende as distâncias e compreende, resiliente, que tudo isso é só mais um motivo pra estarmos ainda mais perto, mesmo que de longe, de quem amamos.


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