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Em cada número, um milhão de histórias

Atualizado: 11 de Jun de 2020

Por Lila Dariva


"E daí? Lamento, quer que eu faça o quê?"

Eu quero que pegue o telefone, senhor, e ligue para o irmão do nº 44. Quero que diga que as lembranças da infância, quais ele guardava em segurança em outro coração, não poderão ser revividas.

Quero que ajude a filha da nº 394 a desfazer o guarda-roupas da mãe, a tirar as camisas de seda que ela usava aos domingos e colocá-las em malas para doação.

Quero que responda a um áudio, no celular da nº 646. Ele fala sobre a saudade que um aluno sente de sua "profe".

Quero que explique ao neto da nº 79, de 5 anos, que a vó não vai voltar do hospital e nem comer o bolo que ele ajudou a fazer.

Quero que diga ao pai que segura uma recém nascida na sala de espera, que sua esposa, a nº 188, não vai voltar para casa com eles. E quero que esteja presente, também, quando ele contar às outras filhas onde a mãe delas está.

Quero que acalme a mãe do nº 18 enquanto ela segura um pequeno pijama de astronauta. Ela não sabe como vai continuar vivendo, pois perdeu a razão de sua vida.

Quero que alimente o gato do nº 290, que lhe faça carinho e lhe arrume um novo lar.

Quero que devolva ao filho da nº 589 os pertences deixados por ela. O pijama bonito guardado para usar no hospital e os chinelos de pano.

Quero que diga a um menininho fanático por futebol, que o pai não levará mais ele ao estádio. Nem à escola. Nem naquele acampamento programado. Ele é o nº 621.

Quero que alfabetize crianças com a mesma paciência da nº 904. Que faça recortes e desenhe animais nas letras do alfabeto, assim como ela fazia.

Quero que diga à filha do nº 888, sem magoá-la, que ela não irá mais pular ondas com pai nos próximos verões. Nem cantar com ele suas músicas preferidas. Nem dançar com ele as coreografias do balé.

Quero que diga ao paciente que ganhava vários remédios de seu médico, que ele não poderá mais atendê-lo, pois é o nº 998.

Quero que presenteie a mãe do nº 89 com livros, assim como ele fazia em todos os aniversários dela.

Quero que cubra a filha da nº 654, como a mãe dela fazia todas as noites. Que leia com ela suas histórias favoritas, faça estrelas com a lanterna no teto do quarto.

Quero que você leve alimentos para a família do nº 493, que mande flores para a esposa do nº 23, que entre na igreja com a filha do nº 368, no ano que vem.

Quero diga à filha grávida do nº 230, que o filho dela não vai brincar de aviãozinho com o avô, como ela fazia com pai quando criança.

Quero te ver fantasiado de papai noel no natal, como fazia nº 92. Que plante flores numa praça pública descuidada, como o nº 907. Que dê aulas de graça para crianças carentes, como a nº 542.

Que diga à filha da nº 600 que tudo vai ficar bem. Que a camiseta usada pela mãe ainda guarda seu perfume.

Quero que apague a luz que o nº 12 deixou acesa quando saiu apressado e que afague o cachorro que dorme em cima do travesseiro, com saudades do dono.

Entregue a carta de amor que a nº 873 escreveu ao antigo namorado. Ajude a mãe da nº 78 a apagar as estrelas da parede do quarto – não tem mais criança ali.

Quero que esteja presente nas noites em claro com a esposa do nº 2 e que chore no enterro do nº 931.

Quero que tente segurar uma mãe que desmaia ao saber da morte do filho....

Todos os dias eu poderia lhe apresentar uma lista assim. Todos os dias elas são repletas de filhos, irmãos, professores, garis, doutores, enfermeiros, escritores, amigos, amores…

Ela pode ser só a repetição constante de números elevados ou mil histórias que se interrompem. Você escolhe.

Eu quero a postura de um líder, alguém que lamenta a dor de seu povo, que não faz piadas no dia que seu país bate recorde de mortes.

Quero a postura de um líder que faz projetos para conter a doença e não anda de jet ski enquanto abrem-se milhares de covas e fecham-se as portas de milhares de comércios.

Quero a postura de um líder que governa, que não faz birra, que não vai contra orientações de saúde e medidas de isolamento. Um líder que se desculpa pelos erros, muda de discurso e não apenas de ministros.

Quero alguém que compareça aos hospitais, peça desculpas por chamar de gripezinha as dores sofridas pela falta de ar.. Que vá aos lares despedaçados prestar apoio e não a manifestações antidemocráticas para inflar o próprio ego.

Quero um líder, alguém humano o bastante para trocar cada um dos 23.473 números por nomes, por rostos, pelos perfumes que exalavam, pelas músicas que gostavam, pelos livros que não terminaram, pelos feitos de suas carreiras, pelas ajudas que prestaram, pelo medo da morte que sentiram, pelas dores dilacerantes que suas partidas causaram.

Quero, senhor, que acorde pela manhã e descubra, de alguma forma, que governar o país não é brincar de faz de conta.

Por hora é o mínimo que quero, já que perguntou.


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