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Educação à distância: o desafio de ensinar na pandemia

Atualizado: 17 de Jun de 2020

Conheça histórias de superação de professores após a imprevista despedida das salas de aula


Escrito por Talita Laurino

Apuração por Talita Laurino e Lila Dariva


| Foto Thais Mota

“Ninguém nega o valor da educação e que um bom professor é imprescindível. Mas, ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores”. Assim disse Paulo Freire em um de seus discursos emocionantes sobre a arte de ensinar. Com a pandemia obrigando as escolas a se adaptarem para os meios virtuais, esse cenário aproxima cada vez mais pais, educadores e estudantes.

O desafio das instituições educacionais migrarem para a internet começou em março, quando foi decretada a quarentena. Angélica Matais, professora de ciências e matemática do ensino fundamental em um Colégio de Curitiba, conta que se desesperou ao pensar em sua primeira aula virtual.

“Me senti perdida. Como se estivesse em um buraco escuro. Não fazia ideia do que fazer. As instruções do colégio foram excelentes, mas o desespero veio porque o ensino em sala de aula é diferente de tudo. O contato com o aluno é importante, então como ensinar matemática para 50 crianças por meio de uma tela de computador?”, questionou-se.

Aos poucos, as metodologias começaram a se transformar. “A criatividade aflora em tempos de crise, não é mesmo?”, brinca ela. A professora de matemática e ciências aproveitou o momento e criou uma campanha com as crianças nas redes sociais, o projeto: Saúde para nós e para o Planeta.

“Um aluno estava muito preocupado com o descarte incorreto de máscaras, poluindo os oceanos e sujando as ruas. Quando ele disse isso, já pensei em criar uma campanha em que as crianças pudessem escrever e desenhar em cartazes sobre o assunto e conscientizar a população sobre o perigo que é cuidar de si e esquecer de cuidar do planeta”, conta Angélica. Sucesso. A campanha virou o Instagram @saudeparanoseparaoplaneta e por lá todo mundo pode conhecer o trabalho dos alunos.


No ensino infantil, infelizmente, não é tão fácil usar as redes sociais para criar interação entre os alunos, como conta Cristiane Mota, professora da pré-escola, em um colégio particular de Curitiba. A dificuldade aumenta ainda mais, uma vez que nesta fase as crianças possuem entre quatro, cinco e seis anos. Todos sabemos que esse é o período que trabalhamos as interações, o cuidado e as abordagens se dão através da ludicidade. Além de todo o processo de formação integral da criança.”.

Ela conta que é preciso contar com as famílias nesse processo. “Um método que estou usando e que permite maior autonomia das a crianças é além de realizar atividades que sejam agradáveis e com conteúdo, gravo áudios explicando cada proposta. Assim, eles conseguem interpretar o que estou solicitando da mesma forma que faria se estivesse na escola. Por exemplo, coloque sem nome na linha e cuidado para a letrinha não voar....pinte o desenho com as cores que você gosta, mas não passe do limite....não se esqueçam que os números obedientes olham para frente e os desobedientes (5, 6) olham para trás”, explica.


A relação entre aluno e professor, principalmente na primeira idade, possui um vínculo especial. Mota busca manter um momento de interação extra, nas aulas online, para que os pequenos possam manter os laços com ela. "Nessa hora eles gostam de mostrar os dentinhos molinhos e que estão ainda de pijama. Dizem que sentem muita falta do abraço de urso da professora e dos amigos. Sempre falam 'logo vai passar' Além disso, algo que não tem preço são os áudios que enviam mandando beijinhos e que estão com saudades", relata ela.


| Vídeo Thais Mota


E a educação especial, como ficou? Com uma atenção que precisa ser redobrada para esse público, as escolas se desesperaram com a crise do Coronavírus. A professora de artes, Tânia Nara Lucatelli Antunes, da APAE Capanema-PR explica que a educação à distância online não funciona com alunos especiais, por isso, foi necessário reinventar. “O medo tomou conta, principalmente, em relação aos pais, a como iriam conseguir realizar as atividades, porque, mesmo acostumados a lidar com as crianças, eles são pais e não professores. Além do mais, são pessoas muito carentes. Ficamos com muito medo, mesmo, de como tudo iria acontecer”, expõe.

Ela explica que a escola optou, então, por enviar atividades para esses alunos e criou um único grupo de Whatsapp com os pais, para repassar por lá todas as informações. A diretora quis preservar a intimidade dos professores, evitando passar os telefone e contatos pessoais. “Muitos alunos não entenderam o que está acontecendo. Eles são crianças grandes e não compreendem a dimensão do que ocorre, apenas que estão tendo que estudar dessa nova maneira. Muitas mães me mandam mensagem, me ligam, me mandam frutas… mandam as imagens do que eles fazem e vídeos deles. Mas nosso contato, mesmo, está sendo o mínimo”, complementa.


A educação especial tende a ser prejudicada, de uma maneira muito mais ampla, com o sistema de EAD. Para muitos dos alunos, a escola é o único lugar que tendem a frequentar, além da própria casa. O método de ensino exigido, além disso, é muito mais complexo, principalmente para quem não está acostumado. "É difícil, é muito difícil. Tem uma coisa que eu sempre digo: É fácil ensinar uma criança que aprende, uma criança inteligente. Muitas vezes você não precisa fazer nada demais e ela aprende. Agora, quando você pega uma criança com dificuldade, que não vê o mundo do jeito que você vê, que você precisa abrir novos horizonte para ele, que você precisa ensinar com novos métodos, que você precisa se virar do avesso para ver se aquela criança entenda, aí é difícil. É muito difícil. É, muitas vezes, frustrante para quem não é acostumado, para quem quer que a resposta àquele estímulo seja rápida. E isso é preocupante, nesse momento", explica.


Os alunos recebem todo material das atividades, feitos pelos professores, para levar para casa | Arquivo pessoal

Enquanto um público gosta de se expor para as câmeras, outro busca o contrário. O professor universitário Renan Colombo comenta sobre um sentimento de solidão em relação às aulas com os alunos com as câmeras desligadas. “Eles se sentem envergonhados por não estarem com uma roupa social, e por muitas vezes estarem usando pijama e isso passa um sentimento de solidão durante as aulas”. O professor comenta que o sentimento diminui quando os estudantes interagem com o chat e o uso do microfone, mas que mesmo assim ainda é uma adaptação excêntrica.

Do mesmo modo, o professor comenta que a aprendizagem tem sido efetiva, principalmente com os primeiros períodos. “É claro que haverá uma oscilação no aprendizado cognitivo, mas não será grande, estamos conseguindo nos adaptar muito bem”.

Curitiba entrou em alerta laranja no dia 13 de junho. A cidade está com cada vez mais casos confirmados, enquanto o isolamento social diminui. Neste contexto, a tão sonhada volta às aulas fica cada vez mais distante. Enquanto isso, professores continuam provando seu amor por ensinar - seja do jeito que for.


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